quando ela voltou…

30 / 11 / 2007   crônicas, política

Do começo ao começo do meio.

Sua mãe era bela e admirada. Na década de 1950 era assim, para se tornar a ‘miss’ de um país inteiro havia de ser realmente bela e modelar. Seu pai havia sido ministro de estado e mais tarde foi nomeado embaixador em Paris. E foi lá que a menina cresceu, brincou, conheceu a vida e seus amores. Estudou no Sciences Po (Institut d’Études Politiques de Paris) e encontrou um diplomata (a vida e seus Édipos) por quem se apaixonou. Casaram-se e tiveram duas meninas. A vida seguia seu curso no trajeto cheio de aeroportos da carreira diplomática. O governo francês enviava seu marido a todos os cantos do mundo e assim foram de Wellington a Quito. Bela como a mãe e com o dom da conversa como o pai, Ingrid trabalhava como professora de ginástica na capital equatoriana. A existência ia calma e tranquila. E, como sempre acontece nesses casos, algo estava errado: a vida tão boa não parecia completa. Sua terra natal havia deixado de ser lar há tempos, desde a infância em Paris. Chegara o momento de mudar.

Mataram Luis!

Não sei até hoje se ela o conhecia, mas como todos sabiam quem era Luis Carlos Galán, isso não tinha a menor importância. Ela conhecia a luta. Galán, jornalista e político, combatia os efeitos danosos dos cartéis de drogas na vida pública. Já mencionei que falamos da Colômbia? Não?! À essa altura já sabemos todos… Voltando, ele criticava duramente a influência de figuras como Pablo Escobar nos assuntos do País e por isso pagou o preço capital: foi assassinado a tiros em 18 de agosto de 1989. Em praça pública. Era uma demonstração de força da bandidagem organizada.

De certa forma funcionou, a demonstraçao de força. Ingrid recebeu disso um novo impulso e voltou. Candidatou-se ao parlamento e foi eleita. Os principais cartéis já estavam enfraquecidos mas o hábito da corrupção ainda vestia muitas das figuras e hierarquias mandantes. Ela sabia que precisava se posicionar contra isso. E assim o fez. Também chegava a um ponto além do crítico os efeitos das tais Forças Revolucionárias da Colômbia. Movidas a narcotráfico gastavam fortunas pra combater o estado e aterrorizar 40% da nação.

Num esforço de negociação o presidente Pastrana criou um zona desmilitarizada (DMZ). Um território para encontros entre governo e narco-terroristas. Em nada deu.

Ingrid seguia sua vida, já sem o francês e agora casada com um colombiano, e sua ascendente carreira política. Havia sido eleita senadora com o maior número de votos e disputava a presidência, aos 40 anos de idade.

Mataram Luis e ganharam uma determinada.

Não vá, não vá!

E assim, determinada a ir até a DMZ e negociar diretamente com as FARC, Ingrid teve negado seu pedido de seguir em um helicóptero das forças armadas. O governo não queria aparentar apóio a algum(a) candidato(a) em especial e tampouco correr o risco de ter que levar a todos até a região que de desmilitarizada só possuia o nome. Como disse, determinada (sim, aqui funciona como nome) resolveu seguir por terra. Ao chegar ao último ponto de vistoria do exército repudiou a todos os pedidos para não seguir em frente. De certa forma faz sentido, não? Ela havia deixado o conforto pela ‘luta’ e gostou da batalha. Gente assim não pára mesmo que peçam. Ingrido foi. Ingrid não voltou. Desde de fevereiro de 2002

Em abril de 2007 Jhon Frank Pinchao escapou após 9 anos em poder das FARC. Contou sobre Ingrid, que estava viva e por querer viver tentou escapar várias vezes. E foi severamente punida. Por favor, Pinchao, não me diga o que significa isso.

E então veio a foto. Ela está lá, de um lado da montagem a senadora em ação, do outro a mulher com marcas e abatida, olhando para o chão: a prisioneira. Também acho, antes fosse nome de folhetim.

ingrid-betancourt-2002-2007.jpg

e quando ela voltou…

Não sou modernista nem nada mas essa história não tem fim. O meio ainda não acabou. O exército colombiano encontrou um acampamento com fotos e cartas de prisioneiros, mas sem os prisioneiros. Ingrid parece estar, se não viva, vivendo.

E por aqui haverá algum encontro de ‘forças progressistas’ (aquelas que apóiam modelos ditariais cunhados faz cento e tantos anos, que acham legítimo alterar constituições para mascarar golpes de estado e que nada dizem de novo) em que as tais ‘forças’ serão convidadas e aplaudidas por ‘aqueles’ das ‘aquelas’. Não se esqueçam de vaiar Ingrid durante o seu próximo encontro: ela ousou considera-los humanos.

enviado por Marcos V.

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